Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, Mas Viva Que Nunca!!!!

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Disco cultuado de Raul Seixas
e cercado de lendas volta às lojas

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O
ano era 1971. Raul Seixas havia deixado Os Panteras em Salvador, mas
não seu amor pelo rock. Produtor de ponta da gravadora CBS,
influenciado por discos como "Freak out", de Frank Zappa, "Sgt.
Pepper’s Lonely Hearts Club Band", dos Beatles, além do "Tropicália",
ele resolveu também dar o seu recado e gravar a sua turma: o capixaba
Sergio Sampaio, o baiano Edy, que mais tarde acrescentaria Star ao seu
nome, e a sambista paulistana Míriam Batucada. O resultado foi um
fracasso colossal. A gravadora não gostou, a Censura menos ainda, as
rádios ignoraram e nem show de lançamento teve. Mas "Sessão das 10", da
intitulada Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, tornou-se um dos discos
mais cultuados, uma raridade para colecionadores que agora é relançada
pela Sony Music.


Durante muito tempo se alimentou a lenda de que as
gravações foram feitas às escondidas, à noite, sem o consentimento da
CBS, e que, por esse motivo, Seixas teria sido demitido. Mas Edy Star,
único sobrevivente dos quatro artistas (Seixas morreu em 1989, Sampaio
e Míriam, em 1994), isso não aconteceu, até mesmo porque, no ano
seguinte, em 1972, ele produziu o compacto "Diabo no corpo", de Míriam,
e o LP de estreia da cantora Diana, ambos pela gravadora.

– As gravações duraram 15 dias, com hora marcada no estúdio e
anuência do diretor artístico da CBS. Recordo as tardes de reuniões
para compor, e que todas as minhas músicas foram riscadas pela Censura
Federal, a ponto de o relações-públicas pedir para não mandar mais nada
com meu nome. Por isso, esse disco tem coisas minhas que não pude
assinar na época, mas não vou mexer nisso agora – diz Star, que mora
desde 1992 em Madri.

"

O
mais curioso é que o Raul, sendo do meio machista do rock, chamou uma
lésbica, a Míriam, e o Edy, o primeiro artista a se assumir gay
publicamente no Brasil

"

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Ele
lembra que conheceu Seixas no Elvis Rock Clube, em Salvador, e que anos
depois se reencontraram em um programa da Rádio Cultura, quando
Raulzito e Os Panteras o acompanharam em alguns números.

– Quando o Raul me chamou para gravar, eu era conhecido apenas
na noite baiana, onde cantava e já era um artista gay assumido, que
escandalizava os bons costumes.

Sem a menor cerimônia, Star responde por e-mail, em letras
garrafais, que o disco não significou "NADA!" em sua carreira. Nem na
dele e nem na de nenhum dos parceiros.

– Aliás, talvez só para a carreira de Raul, porque lhe deu
coragem pra cantar num festival e, tempos depois, sair da CBS para
seguir sua carreira. Só quem gostou foi o pessoal do "Pasquim", pela
provocação. Na época tínhamos uma proposta de um show, quase uma
ópera-rock, mas nenhuma dessas musicas foi tocada em rádio ou show, a
não ser a "Sessão das 10", que o Raul regravou depois. Quando acabamos
de gravar o disco, cada um tomou o seu rumo. A Míriam detestava o
disco. Depois disso tudo, passou a espinafrar o Raul.

O jornalista e produtor Rodrigo Faour, responsável pela
reedição do disco, conta que sonhava em relançar toda a obra de Simone
em uma caixa. Ao chegar à Sony, gravadora dos discos da cantora nos
anos 1980 como "Corpo e alma", "Cristal" e "Amar", foi informado que
estes discos poderiam ser relançados na série "Caçadores de música".
Nesse bolo veio o "Sessão das 10".

– Este disco é daqueles que crescem com o tempo. Ou porque
estão muito à frente de seu tempo ou porque ganharam importância
histórica. Muita coisa que se fala hoje da Tropicália e da Bossa Nova
ficou mais importante com o tempo. Em sua época, era para poucos mesmo
– diz. – O mais curioso é que o Raul, sendo do meio machista do rock,
chamou uma lésbica, a Míriam, e o Edy, o primeiro artista a se assumir
gay publicamente no Brasil. Vejo no disco uma influência do
"Tropicália", de 1968. Mais caótico, sem objetivos intelectuais, mas
centrado na crítica ao movimento hippie, ao desbundismo, ao
conformismo.

O disco tem a maioria das músicas assinadas por Sampaio e
Seixas, e a dupla também interpreta a maior parte do repertório. Edy e
Miriam cantam em duas faixas. A única não composta por eles é "Soul
tabaroa", de Antonio Carlos e Jocafi. Além do clássico "Sessão das 10",
traz boas canções de Seixas como o, acreditem, samba "Aos trancos e
barrancos" ("Rio de Janeiro você não me dá tempo de pensar/ com tantas
cores sob este sol/ Pra que pensar, se eu tenho o que quero?/ Tenho a
nega, meu bolero, a TV e o futebol") e "Dr. Paxeco", além do "Chorinho
inconsequente", de Sampaio, e "Êta vida", da dupla.

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Era o tempo da ditadura, da radicalização da resistência
política armada, do desbunde, do tropicalismo, e Raul Seixas e
companhia deram sua visão bem peculiar desse contexto. O único
sobrevivente do grupo, Edy, confessa que nunca teve a menor ideia do
que fosse a tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista.

– Sabe que eu não sei??!!

Orkut de Edy Star

Raul Seixas e sua Sociedade
da Grã-Ordem Kavernista Apresenta:
Sessão das 10 – 1971

Os Kavernistas Sérgio Sampaio, Edy Star e Raul Seixas com Miriam Batucada

Entre a anarquia tropicalista dos Mutantes e a mistura feita pelos Novos Baianos no disco Acabou Chorare,
um quarteto virou a MPB de pernas pro ar. Foi a Sociedade da Grã-Ordem
Kavernista, formada por Raul Seixas, Miriam Batucada, Sérgio Sampaio e
Edy Star. O único disco da turma, Sessão das 10, trouxe um deboche
típico do mais endiabrado mutante.
O ano era 1971. Raulzito ainda
não tinha pousado na sopa da música brasileira e defendia um troco
produzindo artistas como o lendário Jerry Adriani e Vanderléia. Sérgio
Sampaio ainda não tinha botado seu bloco na rua. Miriam Batucada fazia
pouco barulho. Edy Star, que assinava apenas Edy, se juntou ao trio de
pé-rapados e malditos para fundar a Sociedade, ainda sob os ecos
tropicalistas, que completam 38 anos agora em 2009.
O LP, corrosivo, saiu pela CBS (atual Sony/BMG), mas encalhou nas prateleiras. Foi gravado, produzido e lançado

por Raulzito enquanto o presidente da CBS estava viajando, e é claro
que além do disco ter sido recolhido, Raulzito foi demitido de seu
emprego de produtor musical.
Difícil
imaginar esse trabalho consumido em larga escala. A começar pela
vinheta circense que abre o disco, anunciando que tudo ali não passa de
uma saudável palhaçada. E o que dizer da vinheta final, em que se ouve
com nitidez o som de uma descarga levando tudo esgoto adentro?
Sessão
das 10 estava longe de ser uma bosta. Entre o circo e a merda, há vida
inteligente nas onze músicas do grupo. "Êta Vida" é um pop descarada e
deliciosamente comercial, no pior sentido do termo. A faixa-título, em
clima seresteiro, sacaneia com todos os boêmios que levavam as
serenatas a sério. Era deboche puro – a diferença é que com material
próprio, enquanto os Mutantes, um ano antes, jogavam pedra no até então
intocável "Chão de Estrelas".
O samba "Eu Vou Botar Pra Ferver"
denuncia a alegria burocratizada que reinava (e ainda reina) nos salões
carnavalescos. O quarteto queria era rir, como deixa claro em outro
sambinha, "Eu Acho Graça". A vinheta que precede a faixa cutuca a mania
in de ser hippie que alucinava, com um certo atraso, parte da juventude
brasileira. "Chorinho Inconsequente" já diz tudo desde o título, na voz
linda, leve e solta de Miriam Batucada, que acabaria encontrada morta
em São Paulo, no começo dos anos noventa, sem nunca ter alcançado o
sucesso que tanto perseguiu.
Sessão das 10 tem um repertório
eclético. Em "Quero Ir", a turma pinta seu pop com umas tintas rurais
sem desbotar a música. "Soul Tabarôa", assinada pela dupla Antônio
Carlos e Jocafi, mistura coco e embolada, enquanto "Aos Trancos e
Barrancos" traz a típica batucada dos morros cariocas.
A anarquia
sonora era pretexto para o quarteto denunciar a doença de uma sociedade
que perdera a alegria e a descontração – artigos que sobravam na Ordem
Kavernista. Os tempos eram negros, Médici transformava o Brasil num
imenso porão, mas havia luz no túnel escavado pela turma liderada por
Raulzito.

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista
Apresenta: Sessão das 10 (Sony/BMG – 1971)

Faixas:

01 Êta Vida
02 Sessão das 10
03 Eu Vou Botar prá Fever
04 Eu Acho Graça
05 Chorinho Inconseqüente
06 Quero Ir
07 Soul Tabarôa
08 Todo Mundo Está Feliz
09 Aos Trancos e Barrancos
10 Eu Não Quero Dizer Nada
11 Dr. Paxeco
12 Finale

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